ARCANE: A ADAPTAÇÃO DE JOGO QUE ENTROU PARA A HISTÓRIA

ARCANE: A ADAPTAÇÃO DE JOGO QUE ENTROU PARA A HISTÓRIA

Arcane veio para marcar a história! Baseada em League of Legends (LoL), a série é uma colaboração da desenvolvedora Riot Games com o estúdio de animação Fortiche e faz parte das comemorações do aniversário de dez anos do jogo. O seriado se tornou o mais assistido da Netflix assim que estreou, em novembro de 2021, e já tem a segunda temporada confirmada. Os nove episódios foram divididos em três atos e estão todos disponíveis para maratonar. Mas aí vem a dúvida: “Eu não conheço LoL e nunca joguei, ainda posso assistir?” A resposta é sim! Essa obra foi feita tanto para fãs de longa data do game quanto para quem não está familiarizado com ele.

As cidades-gêmeas Piltover e Zaun estão em constante conflito há anos, seja de forma física ou política. Enquanto a utópica Piltover é considerada a “cidade do progresso”, da tecnologia e inovação, a oprimida Zaun é deixada à própria sorte, sofrendo com a criminalidade, violência e péssimas condições para se viver. As irmãs Violet (Vi) e Powder (Jinx) são pegas no meio dessa guerra e se veem precisando escolher um lado, mas e se tiverem que ficar uma contra a outra?

Imagem de divulgação da série. Fonte.

Universo e narrativa

A série conta com uma ótima construção de mundo. Somos apresentados aos ricos de Piltover, que é governada por um conselho formado pelas casas nobres, e aos pobres de Zaun. As duas cidades são muito contrastantes entre si, mas, ao mesmo tempo, conectadas. Conhecemos como é a vida dos personagens que moram em cada um desses locais. Os cidadãos da Cidade Alta se veem ameaçados, enquanto os da Cidade Baixa se sentem deixados de lado, então cada um tem motivos para odiar o outro. Isso é o que acaba causando os conflitos.

Dito isso, alguns dos temas importantes discutidos em Arcane são a desigualdade social, a guerra e a política. Nós conseguimos ver o descaso de Piltover com Zaun e o quanto os ricos são privilegiados. Alguns deles deixam esse privilégio e o poder subir à cabeça, enquanto outros conseguem ter empatia e ver que tudo está errado, que é preciso mudar. Porém, conflitos causam mortes nos dois lados e levam a traumas irreversíveis. Também há bastante discussão sobre a magia e a ciência através da empresa Hextech. São duas coisas que se espera que sejam excludentes entre si, mas o seriado mostra o que aconteceria ao juntá-las. Aí entra a parte da ética: o quão longe você iria pelo “progresso”? Até que ponto a tecnologia é algo útil ou que pode ser prejudicial?

A diferença entre Piltover e Zaun. Fonte.

O núcleo emocional da série, que faz o espectador ficar investido, é a parte da família e da amizade. A traição é algo que também é muito presente, e como esse tipo de coisa fica marcado para sempre. Nós acompanhamos aqueles personagens, torcemos por eles e sofremos junto. Arcane entrega uma história muito emocionante misturada com as cenas de ação, que são um dos pontos mais altos dessa obra. As lutas e batalhas, que são muito bem animadas e coreografadas, conseguem trazer o sentimento de estar jogando League of Legends, enquanto a narrativa dá mais profundidade para a lore do jogo. O espectador se sente parte daquele universo e consegue acreditar facilmente que ele existe de verdade, porque os temas conversam com a nossa realidade. Eles são muito bem trabalhados e aprofundados por ser um seriado, não um filme, então há mais tempo para deixar o público cada vez mais interessado.

Personagens

Além de Vi e Jinx, outros campeões jogáveis de LoL que são de Piltover e Zaun aparecem na série: Caitlyn, Ekko, Viktor, Jayce, Heimerdinger, Singed, além de outros que são referenciados também, e novos que foram criados para a trama. Arcane está cheia de referências ao jogo, o que traz mais camadas para a narrativa e abre possibilidades para explorar mais temas no futuro. Quem está familiarizado com o game vai ficar muito feliz ao ver esses easter eggs, mas isso não atrapalha em nada quem não conhece. Você não vai ficar sem entender algo, então pode ficar tranquilo. O seriado conta a história de origem desses personagens, passando por várias etapas da vida deles e mostrando como chegaram onde estão hoje, como são vistos dentro de League of Legends.

Vi e Jinx. Fonte.
Jayce e Viktor. Fonte.

Os personagens são outro ponto de destaque em Arcane. Conhecendo ou não como eles são no jogo, todos eles são muito bem construídos, cheios de camadas, com suas qualidades e defeitos. Ao assistir, você é capaz acreditar que eles são pessoas reais. Todos recebem destaque e desenvolvimento, então você consegue entender suas motivações e se apegar a eles, mesmo quando erram e mesmo estando em lados opostos do conflito. Em alguns casos, vemos cidadãos de Piltover ajudando os de Zaun e vice-versa, o que deixa tudo ainda mais interessante. Fica claro que não existem pessoas totalmente boas ou más, só humanas.

Além das personalidades variadas e das características físicas únicas, podemos ver muita diversidade nos personagens de Arcane, em termos de etnias, sexualidades, tipos de corpos e histórias de vida de um modo geral. A representatividade LGBTQIA+, por exemplo, é algo que nem sempre existiu dentro do jogo e que os jogadores cobravam muito da desenvolvedora. Foi uma luta para conseguir isso, mas mostrou que a empresa estava disposta a ouvir os fãs e atender às expectativas deles. Era de interesse da Riot Games enriquecer a lore, para que se tornasse mais interessante e deixar as pessoas mais envolvidas, então eles levaram em consideração bastante de conteúdo fanmade. Não foi algo pensado só na monetização: esse grande projeto foi para presentear a dedicação dos players e apresentar esse universo para quem não o conhecia.

Vi e Caitlyn. Fonte.

Parte técnica

A parte técnica de Arcane está impecável. O que mais chama a atenção é a qualidade da animação, que tem um estilo que combina 2D (feito à mão) e 3D (computadorizado). Existem cenas que são mais escuras, enquanto outras são cheias de cores, o que ajuda a ver a diferença entre Piltover e Zaun. Há uma mistura entre o realista e o artístico, além de muitos detalhes nos cenários e nas expressões dos personagens, o que foi muito usado para transmitir emoções. Foi uma decisão acertada escolher a animação, porque trouxe um sentimento único para a obra. A caracterização, a conexão com os personagens, a ação e a liberdade criativa seriam muito difíceis de fazer em live-action. O estúdio francês Fortiche já trabalhou com a Riot Games para a criação de curtas animados e clipes musicais, como por exemplo o single POP/STARS da banda virtual K/DA. Então, dá para ver o grau de confiança e cuidado com a adaptação para série.

A trilha sonora também se encaixa muito bem com a série. Segundo os criadores, eles quiseram fazer uma espécie de mini clipe em cada episódio, para dar um destaque maior para os momentos musicais e mostrar, através da música, o que é aquele mundo e o que cada cena representa. A abertura do seriado, Enemy, é composta e cantada pela banda Imagine Dragons e pelo rapper JID. Eles contaram em entrevista que, com base no material sobre os personagens, criaram a letra da canção buscando se encaixar ao máximo com a narrativa do seriado. Uma curiosidade é que os integrantes até fizeram uma aparição especial dentro de Arcane em suas versões animadas. Você pode conferir o MV oficial abaixo:

Algo que recebeu muitos elogios foi a dublagem, que conseguiu trazer mais emoção para as cenas. Os dubladores originais de Arcane são diversos como os seus personagens, o que é um ponto bem positivo. Hailee Steinfeld dá voz à Vi: a atriz e cantora, conhecida por interpretar Kate Bishop na série da Marvel do Gavião Arqueiro, também se destacou como dubladora no filme Homem-Aranha no Aranhaverso. Ella Purnell, que participou do longa O Lar das Crianças Peculiares, interpreta Jinx, enquanto Mia Sinclair Jenness faz a jovem Powder. Katie Leung, a Cho Chang de Harry Potter, faz o papel de Caitlyn. Jason Spisak, dublador muito experiente e com várias animações e jogos no currículo, é Silco. Além disso, ainda temos Kevin Alejandro, da série Lucifer, como Jayce; Harry Lloyd, o Viserys Targaryen de Game of Thrones, como Viktor; Toks Olagundoye como Mel Medarda; JB Blanc como Vander; e Reed Shannon e Miles Brown como Ekko.

Os criadores da série, Christian Link e Alex Yee, trabalham no departamento criativo da Riot Games há mais de dez anos e foram responsáveis por desenvolver curtas animados, clipes, campeões, skins e por aí vai. Eles, inclusive, ajudaram a criar Jinx e Vi dentro do jogo. Em entrevista, os dois frisaram que Arcane é um agradecimento para os fãs dedicados e que tinham o objetivo de fazer jus às histórias dos personagens e agradar aos jogadores. Então, dá para sentir a paixão envolvida nesse projeto, tanto dos trabalhadores da empresa quanto dos fãs. Link e Yee frisam que, como a Riot começou a dar mais importância para a lore mais recentemente, há bastante espaço para exercer a criatividade e expandir as histórias. Ainda há muito a explorar em Runeterra, o mundo de League of Legends. Um exemplo disso é que o seriado menciona Noxus, uma região próxima a Piltover e Zaun, o que abre muitas possibilidades.

Poro, um dos mascotes de League of Legends. Fonte.

Marketing

Dentro dos jogos, a Riot Games realizou vários eventos para promover Arcane. Em League of Legends, skins da série para Jayce, Vi, Caitlyn e Jinx foram adicionadas. Para conseguir tê-las, os jogadores só precisam jogar partidas, ganhando tanto a skin como o personagem. Não é necessário comprar nada. Outros games da empresa, como Valorant e Wild Rift, também tiveram eventos valendo cosméticos. Além disso, aconteceram colaborações com outros jogos, como por exemplo o Fortnite: no Battle Royale da Epic Games, os players tiveram a oportunidade de adquirir um set completo da Jinx, com direito a skin, mochila, picareta, música-tema e telas de carregamento.

Jinx no Fortnite. Fonte: Twitter oficial do Fortnite.

Arcane consegue agradar os jogadores de League of Legends e apresentar o universo para quem não está familiarizado com o jogo. A série pode se tornar uma porta de entrada para conhecer o game, porque você já vai estar envolvido com os personagens e vai querer saber mais sobre eles, conhecer outros e o restante do mundo de Runeterra. Os gamers sabem que adaptações de jogos nem sempre são bem recebidas, por ser bem difícil traduzir a história de uma mídia para outra, mas Arcane recebeu uma aprovação unânime, tanto de quem joga como de espectadores casuais. Isso pode trazer esperança para um futuro promissor em que jogos são bem adaptados para longas-metragens e séries. Que venha a segunda temporada!

Confira abaixo os trailers dublados de Arcane:

Ficha técnica

  • Título: Arcane
  • Idioma original: Inglês
  • Baseado em: League of Legends, da Riot Games
  • Ano: 2021
  • Número de temporadas atualmente: 1
  • Número de episódios atualmente: 9
  • Duração: De 39 a 44 minutos por episódio
  • Produção: Riot Games e Fortiche
  • Onde assistir: Netflix
  • Classificação etária: Maiores de 14 anos (determinada pela Netflix) / 16 anos (determinada pela Riot)

Sobre League of Legends

League of Legends (LoL), inspirado em Defense of the Ancients (DotA) e Warcraft III, foi criado em 2009 pela desenvolvedora Riot Games. Juntando elementos de fantasia épica e steampunk, o jogo é um PvP (Player versus Player, em que você joga contra outras pessoas) do gênero MOBA (Multiplayer Online Battle Arena, traduzido para “arena de batalha multijogador online” em português). Nesse tipo de game, dois times de cinco jogadores cada se enfrentam em um mapa simétrico, com o objetivo de destruir a base inimiga e defender a aliada. Para isso, você pode escolher entre os mais de 150 personagens jogáveis, chamados de campeões: cada um deles tem habilidades únicas que impactam a jogabilidade de maneiras diferentes. Durante as partidas, você também pode escolher itens extras para aumentar o seu poder gradualmente.

O LoL está disponível apenas para PC (Microsoft Windows e, mais recentemente, macOS), porém é leve o suficiente para funcionar em qualquer computador. Ele segue o modelo freemium, em que o game é grátis, mas oferece compras de cosméticos customizáveis (como por exemplo skins e ícones) dentro dele. Esses itens não interferem na jogabilidade, somente na parte estética, então é possível jogar sem precisar comprar nada. Isso tudo torna o jogo bem acessível. Existem dois tipos de “moeda” principais: Riot Points (RP), que podem ser adquiridos com dinheiro de verdade para ter os cosméticos; e Blue Essence (BE), que podem ser acumulados apenas jogando e usados para desbloquear personagens. Há ainda as caixas de itens (loot boxes), que você também consegue jogando e durante eventos.

Skins originais de Vi e Caitlyn no LoL. Fonte: Divulgação/Riot.

Entre os eSports (esportes eletrônicos), o LoL é considerado um dos maiores do mundo. Além do Campeonato Mundial, há os torneios Mid-Season Invitational, Championship Series e as ligas regionais, que incluem o Campeonato Brasileiro (CBLoL). A quantidade de pessoas assistindo a esses campeonatos, tanto pessoalmente quanto online, já chegaram a ultrapassar a liga de basquete americana NBA. Em 2018 foi o recorde: quase 100 milhões de pessoas assistiram ao mundial. Os eventos são exibidos em sites para streams, como por exemplo Youtube e Twitch, e também em canais esportivos na televisão, como SporTV e ESPN. Além das partidas em si, há shows em grande escala que atraem o público. As competições acumulam prêmios de milhões de dólares e os jogadores profissionais (pro players) mais bem pagos chegam a receber mais de um milhão em salários.

Algo que chamou muito a atenção para o jogo foi seu conteúdo transmídia. Além do game, o LoL também investe muito em músicas, quadrinhos, curtas animados e, mais recentemente, na série Arcane. Um grande exemplo disso é K/DA, um grupo musical virtual criado em 2018, composto pelas campeãs Ahri, Akali, Evelynn e Kai’Sa. A Riot convidou artistas americanas e do K-pop para dar vozes a elas, criou um clipe animado e lançou uma série de skins com esse tema. Elas fizeram uma apresentação em realidade aumentada no Campeonato Mundial naquele ano, o que ocasionou o recorde de pessoas assistindo. O sucesso interessou até mesmo quem não conhecia League of Legends. O girl group ainda fez um comeback em 2020 junto com a nova personagem Seraphine. Seguindo o mesmo modelo, em 2019 foi criado o grupo de hip hop True Damage, que, além de Akali, inclui os campeões Ekko, Yasuo, Senna e Qiyana. Você pode ver os vídeos abaixo:

Ao longo de mais de dez anos, o LoL construiu uma base de fãs muito fiéis desde então, contabilizando mais de 100 milhões de pessoas. O jogo se mantém muito popular e conhecido até hoje, sempre com atualizações, eventos, lançamentos de novos personagens e balanceamento das habilidades deles conforme for necessário. A desenvolvedora também tem se esforçado para melhorar a lore, trazer mais representatividade e diversidade e incentivar os jogadores a terem melhor comportamento. (Jogos PvP em geral podem ter uma parcela significativa de players tóxicos, que xingam os outros e são preconceituosos). Atualmente, eles adicionaram novos modos de jogo, como por exemplo o ARAM, que conta com partidas mais rápidas e com campeões surpresa; além de acrescentarem mais informações que facilitam para quem está começando a jogar.

LoL originou vários outros games que se passam dentro do mesmo universo: Wild Rift, a versão mobile, que conta com uma engine e designs mais atualizados; Legends of Runeterra, um jogo de cartas digital inspirado em Magic: The Gathering; e Teamfight Tactics (TFT), um auto battler (sub gênero de estratégia com elementos de xadrez) que é tanto um modo de League of Legends quanto um game separado. Como parte das comemorações do aniversário de dez anos, também estão produzindo um RPG (Role-Playing Game, “jogo de interpretação de personagens”) de combate em turnos, intitulado Ruined King; um jogo de ritmo chamado Hextech Mayhem; além de um MMORPG (Massive Multiplayer Online Role-Playing Game, “jogo de interpretação de personagens online e em massa para multijogadores”), um jogo de plataforma, um de luta e um de esportes.

Jinx e Vi em Wild Rift. Fonte: Twitter oficial de Wild Rift.

Você já conhecia o jogo League of Legends ou conheceu através de Arcane? Deixe nos comentários! Comente também se você ficou com vontade de saber mais sobre os personagens e o mundo de Runeterra. Qual outra adaptação de games para outras mídias você gostaria de ver? Aproveite para comentar também! Temos várias matérias sobre filmes e séries aqui no nosso site, então confira neste link. Siga a Korall no Instagram e não perca nossas recomendações!

Este post tem 3 comentários

  1. Parabéns! Texto muito bem redigido e excelentes pontos levantados sobre a série e sobre o jogo!

  2. Uau! Que matéria completa!!! Parabéns! Eu que não sei quase nada deste universo me senti plenamente inteirada da série e do jogo em si. Adorei a referência às personagens “ Fica claro que não existem pessoas totalmente boas ou más, só humanas.”
    Outra coisa que gostaria de comentar é esta proposta de conexão entre “mundos diferentes “ que se concretiza não só no roteiro em si, mas de produtos diferentes que se entrelaçam criando um universo de possibilidades: vídeo game, série, animação, música, dublagem e em especial a interação com a expectativa dos que possibilitam que a criação tenha sido um sucesso, que são os jogadores e fãs.
    Gostei muito! Obrigada Korall por sempre nos apresentar novidades de modo tão competente e criativo 🥰❤️ Até a próxima! Amei 😍

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