CONECTADAS: UMA HISTÓRIA SOBRE JOGOS, AMOR E ACEITAÇÃO

CONECTADAS: UMA HISTÓRIA SOBRE JOGOS, AMOR E ACEITAÇÃO

Conectadas é um livro nacional que você precisa conhecer! Ele foi escrito por Clara Alves e publicado pelo selo Seguinte, da editora Companhia das Letras, em 2019. Essa obra é perfeita para quem gosta de videogames, mas você pode entender facilmente mesmo se não estiver inserido nesse mundo. Além disso, essa história é cheia de diversidade. Temos certeza que você vai se ver nas páginas em algum momento da leitura.

Raíssa Machado e Ayla Mihara se conheceram jogando Feéricos, um jogo online muito popular criado pela Nevasca Studios. A partir de então, a amizade delas vai crescendo e até mesmo se tornando algo a mais. Porém, Raíssa joga com um perfil masculino, e Ayla não sabe que está conversando com outra menina. Só que o que era apenas online está prestes a se tornar real: São Paulo vai ser palco da feira Nevasca EXPO, oportunidade perfeita para o encontro presencial acontecer. Será que o romance virtual vai sobreviver à realidade?

“Não importa se as pessoas vão se decepcionar. Se você não for verdadeira consigo mesma, a vida perde o sentido”.

Trecho do livro Conectadas, de Clara Alves.
Capa do livro. Fonte: Divulgação/Seguinte.

A narrativa se divide nos dois pontos de vista alternados da Raíssa e da Ayla. Cada uma delas tem os seus problemas a lidar, tanto em relação à família como à sexualidade. De um lado, temos Raíssa, que se sente culpada por mentir, mas tem medo de perder a menina que ama, ainda mais porque não está pronta para assumir que se sente atraída por garotas. A única pessoa que sabe disso é Leo Lopes, seu melhor amigo, de quem pegou a identidade emprestada para seu perfil online. Em meio aos comentários homofóbicos de parentes, ela precisa reunir coragem para ser ela mesma.

Do outro lado, há Ayla, que foca na sua paixão por “Leo” para esquecer do resto: a briga entre seus pais, a escola que odeia e sua atração por meninos e meninas, que a princípio pensa que é só uma curiosidade. Mas será mesmo? Cada vez mais, ela se vê se afastando da mãe e do pai, evitando criar laços profundos com as amigas e fugindo da sua personalidade real. Tanto ela como Raíssa se sentem sufocadas pelo que não dizem, por isso encontram conforto uma na outra. Assim, como temos a visão de cada uma, fica mais fácil simpatizar com as duas, entendê-las e se identificar com o que elas enfrentam.

Essa obra tem bastante representatividade. As protagonistas, Ayla e Raíssa, têm ascendência japonesa e indígena, respectivamente. Além disso, temos personagens das mais variadas sexualidades: hétero, homo, bi, assexual… A própria autora tem ascendência indígena, algo que achava muito difícil encontrar em livros, e é abertamente bissexual, mas teve dificuldade de aceitação. Clara Alves fala muito sobre a importância de se sentir representado, ampliar a visão de mundo e desenvolver empatia pelas vivências dos outros, algo que tenta sempre passar em sua escrita. Isso faz com que esse livro seja ainda mais necessário, especialmente para o público adolescente, que passam por muitos momentos de descoberta.

Algo bem importante também é a atenção dada aos personagens secundários. O foco principal é nas protagonistas, mas seus amigos e familiares têm seu espaço na narrativa. Isso serve para o próprio Leo e também para Gabi, outra amiga de Raíssa, além de Vick e Drica, amigas da Ayla. Até mesmo os pais e outros familiares se destacam, como a tia Sayuri. Eles não estão lá só para girar em torno das duas: eles têm suas próprias vidas, problemas e desenvolvimento. Isso faz com que eles pareçam mais reais e também que seja possível se identificar com eles.

E, claro, os videogames são um elemento central da narrativa. O livro está cheio de referências para quem gosta de jogar. Por exemplo: o nome da desenvolvedora de Feéricos é inspirado na Blizzard Entertainment, uma empresa bem famosa por jogos como World of Warcraft, Diablo e Overwatch. A feira, por sua vez, se baseia na BlizzCon, evento anual para mostrar as novidades dos games deles. Já o jogo que Raíssa e Ayla jogam foi todo criado pela autora, baseado em uma história de fantasia que ela não chegou a escrever. As duas protagonistas encontram no mundo virtual e nas amizades online um jeito de escapar da realidade e de se libertarem, algo bastante relacionável.

A obra ainda fala sobre as dificuldades que as mulheres gamers enfrentam, desde dúvidas em relação a suas habilidades até assédio. Isso leva muitas jogadoras a criarem perfis masculinos, como no caso da Ray, ou a inventarem usuários mais neutros. Tudo isso para poderem jogar em paz. Se você é uma menina que joga, vai se identificar. Apesar desse tipo de coisa ainda acontecer frequentemente, hoje já há movimentos que buscam encorajar as garotas a terem a liberdade de usarem os nicks que quiserem, além de conscientizar os meninos sobre essa situação. Um exemplo disso é a campanha My Game My Name (“Meu jogo, meu nome”, em tradução livre). Você pode ler mais sobre o assunto no site oficial.

Personagens do jogo Feéricos. Arte: Taísa Oni.

Além dos jogos, temos várias referências culturais na obra. Uma das mais importantes para a narrativa é o cosplay: juntando as palavras costume (“fantasia”, no sentido de roupa) e play (“brincar” ou “interpretar”), consiste na prática de se vestir como personagens famosos e muitas vezes interpretá-los. Esse é um dos hobbies da Raíssa em Conectadas. Ayla também introduz o daruma, que é considerado um símbolo de sorte no Japão e é inspirado no budismo. Além disso, as duas falam bastante sobre filmes e livros na trama, entre eles Meu Vizinho Totoro, do Studio Ghibli, Senhor dos Anéis, Orgulho e Preconceito, e muitos outros. Esses elementos são bem importantes para o desenrolar da história.

Por ser um livro que fala bastante sobre o virtual, não poderiam faltar as mensagens trocadas por Raíssa e Ayla. Elas são mostradas de modo bem visual no livro, o que faz o leitor mergulhar ainda mais fundo na história, além de deixar tudo mais verossímil. Afinal, de uns tempos para cá as relações passaram a acontecer muito mais online do que presencialmente, então a troca de mensagem é algo rotineiro. As duas também têm chamadas de áudio quando jogam e até mesmo em vídeo. Mas como a Ray consegue manter o segredo então? Você vai ter que ler para descobrir.

Conversa na contracapa do livro. Fonte: Divulgação/Seguinte.

Sobre a autora e curiosidades

Clara Alves tem 27 anos, mora no Rio de Janeiro e é formada em Jornalismo, mas hoje trabalha no mercado editorial. Já escreveu livros no Wattpad, plataforma gratuita voltada para novos escritores e com feedback de leitores a cada capítulo, e também ebooks diretamente na Amazon. Conectadas foi o seu primeiro lançamento “tradicional”, em formato físico (mas também há a versão digital), algo que ela fala em uma entrevista ao final da própria obra. Para ela, o mais desafiador foi escrever o livro inteiro sem saber o que as pessoas achavam dele, e só descobrir depois de ele ser lançado.

Segundo a autora, a ideia para escrever Conectadas veio dos fakes do Orkut. Na época em que essa rede social era a mais popular, muitos jovens criavam perfis falsos e faziam vários amigos por lá, mesmo que ninguém soubesse como eram na vida real. Ela fala mais sobre essa e outras curiosidades neste vídeo da editora Seguinte. Clara Alves também tem um canal no Youtube, no qual que dá várias dicas sobre escrita, recomenda livros e fala sobre seus próprios trabalhos.

Clara Alves. Fonte: Companhia das Letras.

Para Clara, os livros são os melhores aliados para lidar com dúvidas e problemas. Eles se tornam um porto seguro, um amigo a recorrer quando precisa. Por isso, é importante que a literatura se torne cada vez mais inclusiva. Ela ainda frisa que, antes de se preocupar com o que os outros vão achar de você, o primeiro passo é você se aceitar. O autoconhecimento não é nada fácil: é um processo constante, com altos e baixos, mas que é essencial. Essa é a maior mensagem que Conectadas passa para os leitores.

Se o jovem só tiver contato com histórias heterocisnormativas, com personagens brancos, magros, ricos, então a tendência é ele internalizar esse padrão e perpetuar esse pensamento; é ele acreditar, se fizer parte de alguma minoria, que não pertence, que não merece um final feliz; é ele se autoagredir na tentativa de se encaixar; é ele agredir o outro por ser diferente. E quando a gente pensa diretamente em jovens LGBTQIA+, então você ainda tem a questão da dificuldade de entender que o que ele sente é normal. Que ele não está sozinho.”

Clara Alves em entrevista para a TodaTeen.

Ficha técnica

  • Título: Conectadas
  • Idioma original: Português
  • Autora: Clara Alves
  • Publicação: julho de 2019
  • Número de páginas: 320
  • Editora: Companhia das Letras (selo Seguinte)

Conectadas é um livro imprescindível que merece ser lido por todas as pessoas. Nós da Korall Design sempre frisamos a importância de apoiar obras diversas e também as nacionais, então combinar essas duas coisas é ainda melhor. Você pode ler um trecho dessa história neste link. Se gostar, outras narrativas nessa mesma temática são Vermelho, Branco e Sangue Azul, de Casey McQuiston, e Com Amor, Simon e Leah Fora de Sintonia, da autora Becky Albertalli, sobre as quais já falamos aqui no nosso site. Uma que tem os jogos como tema principal é Warcross, escrita por Marie Lu, que também tem resenha na Korall.

Já leu Conectadas ou ficou com vontade de ler? Conte para nós nos comentários! Comente também se você gosta de jogos e com qual das personagens você mais se identifica. É possível conferir mais posts sobre livros aqui na Korall. No nosso Instagram sempre avisamos quando temos novas postagens, fazemos recomendações e ainda comentamos sobre as principais notícias, então siga a gente lá.

Este post tem um comentário

Deixe um comentário