O JOGO DE REALIDADE VIRTUAL EM WARCROSS

O JOGO DE REALIDADE VIRTUAL EM WARCROSS

Warcross é o primeiro livro da duologia de mesmo nome, escrita por Marie Lu em 2017. A autora ficou conhecida por escrever outras duas séries distópicas de sucesso, Legend e Jovens de Elite, e essa é a sua primeira de ficção científica jovem adulto. Publicada no Brasil pela editora Rocco (selo Fantástica), a obra recebeu críticas positivas e ficou por várias semanas entre os bestsellers do The New York Times. Além disso, foi indicada ao prêmio Goodreads Awards em duas categorias.

Emika Chen tem 18 anos e trabalha como caçadora de recompensas em Nova York, usando suas habilidades como hacker para solucionar crimes cibernéticos relacionados ao jogo de realidade virtual Warcross, como por exemplo apostas ilegais. É um trabalho arriscado e instável, mas ela precisa sobreviver. Quando Emika consegue acessar a abertura do campeonato internacional do game e acidentalmente se transporta para o meio da partida, ela se torna uma sensação mundial da noite para o dia. Porém, em vez de ser punida por sua façanha, ela chama a atenção de alguém importante. A garota se surpreende ao receber uma proposta de emprego do próprio criador de Warcross, o jovem bilionário (e seu ídolo) Hideo Tanaka: ele precisa de um espião dentro da competição para descobrir uma falha na segurança. Para isso, Emika é chamada às pressas para Tóquio e se infiltra entre os jogadores, no serviço mais perigoso que já fez na vida. Mas esse problema é muito maior do que qualquer um imagina e pode colocar todo o império da desenvolvedora Henka Games a perder. Como ficaria a situação no mundo, que não conhece mais a vida sem Warcross?

Capa nacional do livro. Fonte: Divulgação/Rocco.

A trama lembra um pouco a de Jogador Número 1, escrito em 2011 por Ernest Cline e que foi adaptado para o cinema em 2018. Similarmente, ambas as obras têm como foco os jogos de realidade virtual e as sociedades que vivem em função deles, com narrativas cheias de ação. Porém, elas tratam de assuntos diferentes dentro da mesma temática. O exemplar de Cline explora uma caça à herança deixada pelo criador do game OASIS, na qual jogadores não profissionais do mundo todo precisam competir com grandes corporações e empresários, que burlam as regras atrás do prêmio para ficar ainda mais ricos. Enquanto isso, Warcross mostra os torneios de pro players, os bastidores da empresa e as investigações, além de trazer uma protagonista feminina. Poderia facilmente ganhar uma adaptação cinematográfica também, por conta das descrições imaginativas e as cenas muito visuais. Tanto que até foi produzido um pequeno trailer do livro como se fosse um filme, que você pode assistir abaixo, em inglês:

Universo e narrativa

O Warcross é acessado através do NeuroLink, um óculos de realidade virtual que conecta o cérebro do usuário com a rede. Mais do que um jogo, ele é uma revolução, um estilo de vida na sociedade retratada no livro, que seria apenas alguns anos à frente da nossa atual. Algumas pessoas o usam para escapar da realidade e esquecer dos problemas, outras ganham dinheiro com isso. De qualquer maneira, todo mundo no planeta conhece, joga e acompanha em certa proporção, alguns mais e outros menos. A cada ano, times que participam do torneio mundial escolhem novos jogadores, chamados de coringas (wildcards), durante a cerimônia Wardraft. Depois disso, mudam-se para as gaming houses e treinam para os campeonatos, praticando e elaborando estratégias. Cada integrante tem seu próprio avatar e sua função na equipe, cujo objetivo é capturar o Artefato do oponente, com a ajuda de power-ups, em variados tipos de arenas online. O mundo inteiro para e assiste a esses campeonatos, e os pro players são verdadeiras celebridades, assim como o criador do game.

As tecnologias presentes na sociedade vão desde skates elétricos, no maior estilo dos hoverboards do filme De Volta para o Futuro, a carros completamente automatizados. Outras coisas são bem tradicionais e parecidas com a atualidade, como por exemplo revistas e livros. A relação entre o real e o virtual também é bastante abordada. O mundo dentro do jogo se mostra muito mais convidativo do que a realidade. Com todas as suas cores neon e possibilidades, é um contraste ao ar cinzento e monótono da cidade, que não apresenta tantas perspectivas de futuro. As pessoas têm a oportunidade de serem quem quiserem lá dentro, por conta dos avatares. Podem esconder suas identidades, divertirem-se em bares virtuais e até realizarem ações ilegais que não seriam possíveis fora do Warcross. Por isso, passam mais tempo lá do que vivendo suas vidas reais. Esse é um debate interessante e muito atual.

Os personagens são muito diversos. Além da protagonista chinesa-americana, os jogadores profissionais vêm de várias partes do mundo. O próprio Hideo Tanaka é japonês, e (apesar de não haver uma declaração oficial por parte da autora) pode ter sido inspirado em Hideo Kojima, conhecido por criar jogos famosos como a franquia Metal Gear e o mais recente Death Stranding. Os colegas de time de Emika são carismáticos e é muito legal ver a amizade que eles criam. Existe também bastante representatividade, inclusive LGBTQ+, mas falar mais do que isso seria um enorme spoiler. Então, você precisa ler para saber.

É importante destacar a importância de uma protagonista como Emika, com seus cabelos coloridos, tatuagens e jeito rebelde. Ela é uma menina inteligente, astuta, forte e independente, e usa de todas as ferramentas que tem para conseguir sobreviver. Ao mesmo tempo, é jovem. Está aprendendo, pode cometer erros e se vê no meio de situações com as quais nem adultos saberiam lidar. Mesmo assim, mantém suas morais bem definidas e se importa com os outros. É intrigante acompanhar a história dela, suas escolhas e aventuras, e sempre ficamos querendo saber o que acontecerá em seguida, o que ela fará.

Emika Chen. Fonte: Divulgação/Penguin Books.

O livro é um prato cheio, não só para aqueles que gostam de videogames, mas também para os leitores dos gêneros jovem adulto, ficção científica e fantasia. Com uma narrativa eletrizante, que passa a sensação de estar mesmo dentro daquele mundo, Warcross traz muitas reviravoltas de tirar o fôlego. A autora explora muito bem o conceito do jogo, criando um universo rico com elementos cyberpunk (temática dentro da ficção científica que evidencia a alta tecnologia e a baixa qualidade de vida). O leitor acompanha as investigações de Emika e fica querendo descobrir a verdade junto com ela, e ao mesmo tempo aprende mais sobre o passado dela e de Hideo. Além disso, você fica torcendo durante os campeonatos, porque a protagonista não pode atrapalhar sua equipe e tem que se esforçar, mesmo com esse trabalho secreto. E ela, fã do jogo como qualquer um, não quer causar problemas para os novos amigos nem levantar suspeitas. Se quiser, você pode ler um trecho da obra gratuitamente, em inglês, neste link.

O segundo e último livro da duologia, Wildcard (traduzido no Brasil como O Jogo do Coringa) tem mais foco na ciência e na tecnologia utilizada na sociedade da série, além de trazer as respostas para as perguntas do primeiro volume, com muitas descobertas chocantes e reflexões interessantes. Mesmo assim, continua com bastante ação e mistério. Os personagens se tornam ainda mais complexos e com traços de anti-heróis, o que é um ponto forte da escrita de Marie Lu, embora alguns tenham ficado um pouco de lado para dar espaço aos protagonistas. Isso acaba fazendo falta. Ao mesmo tempo que utiliza muitos elementos clássicos do sci-fi, a obra consegue ser bem realista dentro do universo proposto. Não é melhor do que o antecessor Warcross, mas vale a pena acompanhar o final dessa história.

Capa nacional do livro. Fonte: Divulgação/Rocco.

Sobre a autora e curiosidades

Marie Lu nasceu como Xiwei Lu, em 1984, na China. Aos cinco anos de idade se mudou com os pais para os Estados Unidos, onde se naturalizou americana. Ela estudou ciência política e biologia na Universidade do Sul da Califórnia, e durante a faculdade foi estagiária na desenvolvedora de jogos Disney Interactive Studios. Hoje ela mora em Los Angeles com o marido (que também é artista de videogames) e seus cachorros, e é escritora em tempo integral.

A autora descreve o jogo criado por ela para o livro Warcross como uma mistura entre Overwatch, Mario Kart, World of Warcraft e até mesmo Quadribol. Para a criação do torneio, ela se inspirou nos enormes campeonatos de League of Legends, que milhares de pessoas acompanham, seja em estádios lotados ou em transmissões online ao vivo. As habilidades de hacker de Emika (além de sua perseverança e determinação) foram inspiradas na mãe de Lu, formada em ciência da computação. Marie se diz fascinada por pessoas jovens fazendo coisas extraordinárias, e esses são os protagonistas de suas histórias.

Fonte: Divulgação/Marie Lu.

Ficha técnica

  • Título: Warcross
  • Idioma original: Inglês
  • Autora: Marie Lu
  • Número de páginas: 353
  • Publicação: setembro de 2017 (EUA) / abril de 2018 (Brasil)
  • Editora: G. P. Putnam’s Sons (EUA) / Fantástica Rocco (Brasil)

Você jogaria esse jogo? Joga ou conhece algum dos citados que serviram de inspiração para a autora criar esse game? Estamos curiosos para saber! Se você já leu Warcross, conte para nós nos comentários quais seus personagens e times preferidos! Caso tenha acrescentado o livro à sua lista de leitura, comente aqui embaixo também!

Este post tem 2 comentários

  1. Que grata surpresa este artigo sobre este livro! Minha lista de leituras tem aumentado significativamente! Gostei da ideia de ler uma história que junta os mundos real e virtual, um tema visionário e até certo ponto realista em tempos de século XXI .

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